Maslow-Precursor da Psicologia Transpessoal 

Arlete Silva Acciari

Abraham Harold Maslow, foi um proeminente psicólogo humanista que anunciou a oficialização da Psicologia Transpessoal.

Nasceu em 01 de abril de 1.908 Brooklyn, nos Estados Unidos e fez a passagem em 08 de junho de 1.970, aos 62 anos de idade. Filho de pais russos e judeus, segundo seu próprio relato, era o filho mais velho de sete irmãos, teve uma infância bastante infeliz e miserável. Para fugir da situação que considerava miserável, se refugiava em bibliotecas e tornou-se um notável aluno, estudioso e pesquisador em psicologia.

Inicialmente graduou-se em direito e depois em psicologia. Dedicou-se ao estudo da Psicanálise e Gestalt, tornou-se humanista e lançou as bases da Psicologia Transpessoal. Se destacou na vida acadêmica nas universidades de Columbia, Wisconsin, Braneis e Brooklyn college. 

Dedicou-se ao estudo do comportamento humano, da vida em sociedade, mas em especial, se interessou pelos aspectos saudáveis do ser, pesquisando de forma incansável o que torna as pessoas felizes e realizadas.

Em seus estudos apresenta os princípios fundamentais de uma nova concepção do ser humano de uma Psicologia voltada para a saúde: 

  1. Todo ser humano tem uma natureza interna essencial, biologicamente alicerçada, “natural”, intrínseca e invariável;
  2. A natureza interna de cada pessoa é parte singular e parte universal;
  3. É possível estudar cientificamente essa natureza interna e descobrir a sua constituição;
  4. A natureza humana não é intrinsecamente má, a destrutividade, o sadismo e a crueldade, constituem reações violentas contra a frustração;
  5. A natureza humana é boa ou neutra e é preferível expressá-la e encorajá-la, em vez de a suprimir;
  6. Se o núcleo essencial da pessoa for negado ou suprimido, ela adoece;
  7. Essa natureza interna é forte, e ao mesmo tempo, frágil, delicada, sutil e facilmente vencida pelo hábito, pressão cultural e atitudes errôneas em relação a ela;
  8. Raramente desaparece, mesmo que negada, permanece subjacente e para sempre, pressionando no sentido da individuação;
  9. De alguma forma, as experiências com a disciplina, privação, frustração, dor e tragédia, tem relação direta com o sentido de realização, fortalecimento do ego, amor próprio e autoconfiança. “A pessoa que não, não resistiu e não superou, continua duvidando de que possa consegui-lo”.

Os estudos de Maslow apontam que os problemas psíquicos, o sofrimento psicológico e a psicopatologia (neurose e psicose) são “enfermidades de carência”, ou seja, provocadas por necessidades não saciadas.

Estabelece um grupo de necessidades humanas, que em seu conjunto, considera a multidimensionalidade, o ser: 

  1. Necessidades fisiológicas: se refere à saciedade das necessidades do corpo físico naquilo que é essencial à sua sobrevivência como fome, sede, sono, descanso, sexo, atividade física, etc.
  2. Necessidades de segurança: tudo que envolve e protege a vida e a integridade psíquica do indivíduo, aquilo que oferece estabilidade e ordem. Traduzindo para a realidade dos dias atuais, envolve sistemas e estruturas como moradia, acesso a infraestrutura com água e esgoto tratado, segurança pública, acesso aos serviços de saúde, educação, transporte, etc;
  3. Necessidades de amor e pertencimento: envolve a estrutura de família, laços de amizade e todos os demais relacionamentos. Refere-se, ao âmbito da vida social;
  4. Necessidades de estima: concerne às necessidades humanas de afeto em suas diferentes dimensões, especialmente a autoestima, sentimento de autorrespeito, autoaceitação e autoaprovação. Por outro lado, também inclui receber afeto e validação do outro, isto é, busca suprir necessidades emocionais nas relações intrapessoais (consigo mesmo) e interpessoais (com os outros);
  5. Necessidades de autoatualização: também traduzida como necessidade de realização, crescimento ou individuação, que leva as pessoas a sentirem-se autorrealizadas. Envolve processos amplos, complexos e subjetivos da experiência humana no campo do desenvolvimento do ser, em suas capacidades e potencialidades. Aqui trata-se de considerar o “eterno vir a ser” do processo evolutivo humano. 
  6. Metanecessidades: esclarece em sua obra que este é um nível de experiências inspiradas por valores e necessidades de crescimento, mais comum em pessoas autorrealizadas e que experimentaram o que o autor chamou de experiências culminantes (momentos especialmente felizes e excitantes, carregados de amor e compaixão). Surge, o que Maslow chamou de metamotivação em forma de um comportamento devocional a ideias e metas que estão fora de si próprio, o indivíduo transcende as necessidades no nível do ego e ascende para um funcionamento psicológico a partir do self. Afirma inclusive, que a frustração dessa necessidade desencadeia uma “metapatologia” (falta de valores, sentido ou realização na vida).

É importante ressaltar, que todas estas necessidades são inerentes à experiência humana e a sua satisfação não ocorre de forma linear ou hierarquizada. Contudo, a não satisfação das necessidades fisiológicas, segurança, social e estima, consideradas básicas por Maslow, pode gerar “obstáculos” à satisfação da necessidade de autoatualização; que quando não é suprida, torna menos provável à ascensão para as vivências com as metanecessidades. 

Suas pesquisas e pressupostos preconizam que pessoas saudáveis tendem a satisfazer suficientemente as suas necessidades básicas, de segurança, proteção, pertencimento, amor, respeito, autoestima, identidade e autorrealização; de modo que são primordialmente motivadas pelas tendências para a individuação, realização de seu potencial, capacidades e talentos; buscam um conhecimento mais completo e aceitação da própria natureza intrínseca de si mesmo, com uma tendência incessante para a unidade, a integração ou sinergia interna; essas pessoas tornam-se muito mais autossuficientes, autônomas e menos dependentes; potencialmente se tornam propensas ao contado com as metanecessidades e apresentam algumas características clinicamente observáveis: 

  1. Percepção superior da realidade;
  2. Aceitação crescente do eu, dos outros e da natureza;
  3. Espontaneidade crescente;
  4. Aumento de concentração no problema;
  5. Crescente distanciamento e desejo de intimidade;
  6. Crescente autonomia e resistência à enculturação;
  7. Maior originalidade de apresentação e riqueza de reação emocional;
  8. Maior frequência de experiências culminantes;
  9. Maior identificação com a espécie humana;
  10. Relações interpessoais mudadas (o clínico diria melhoradas);
  11. Estrutura de caráter mais democrática;
  12. Grande aumento de criatividade;
  13. Certas mudanças no sistema de valores. 

Contudo, também nos apresenta questionamentos importantes: Como é que o crescimento ocorre? Como é que o ser humano se desvia na direção da patologia? 

Pois afinal, no mundo real, nem todas as pessoas se mostram ou se sentem felizes e realizadas.

Sugere que, mesmo no desenvolvimento saudável do indivíduo, por algum motivo, ele tende a resistir ao crescimento. Afirma ainda, que é intrínseco à natureza humana o conflito entre as tendências ao crescimento e a realização, e ao mesmo tempo, a ação de forças que o impede, impelindo-o a buscar segurança por medo, receio de correr riscos e resistir a independência, autonomia e individuação. Porém, para que haja o crescimento, o indivíduo deverá escolher entre o conforto da segurança e o desconforto do crescimento, ambos momentâneos. 

Dessa forma, uma sequência de ciclos se repete, envolvendo um dilema ou conflito existencial entre as forças defensivas e as tendências ao crescimento, o movimento de regressão e de progressão psíquica, traços de imaturidade e de maturidade; em ciclos que Maslow chamou de autoatualização. Esse processo ocorre no desenrolar natural da vida em suas diferentes etapas e circunstâncias, ou então, pode ser potencializado pelo processo terapêutico e educacional. Assim, o processo de autoatualização e o impulso ao crescimento são ativados quando: a) as zonas de segurança (estados e experiências de conforto por saciedade) são ameaçadas ou reduzem os seus atrativos; b) nas experiências de crescimento, as ameaças são reduzidas ou surgem atrativos que motivam o indivíduo a desejar mais e ir além. Simbolicamente, esse processo está representado na figura 1.


Figura 1: Autoatualização.

Entre os principais obstáculos ao processo de autoatualização, Maslow ressalta o processo da dessacralização e o complexo de Jonas, como mecanismos de defesa que o ego estrutura para se manter em uma pseudo segurança (Fadiman & Frager, 1986 e Maslow, 1990).

  1. Dessacralização: implica em um relacionamento consigo, com o outro e com a sociedade de forma objetal e desrespeitosa; o sagrado e os valores humanos não são considerados; há o empobrecimento de uma vida pela recusa em tratar qualquer pessoa, circunstância ou objeto com interesse profundo; impera a superficialidade, a banalidade e o escárnio; há uma atitude negligente e desonrosa. Na experiência pautada pela dessacralização, o indivíduo permanece inconsequente e inconsciente dos desdobramentos de sua atitude, não percebe o quanto se agride, o quanto agride o outro e o quanto provoca dor.
  2. Complexo de Jonas: refere-se a uma recusa consciente ou inconsciente em tentar realizar as plenas capacidades; medo da própria grandeza e fuga do próprio destino; evitação à responsabilidade e ao compromisso com a própria evolução; negação do divino e do sagrado em si mesmo. Sugere, ao mesmo tempo, uma resistência e uma fragilidade para a individuação.

A experiência da autoatualização implica em vencer estes mecanismos de defesa, abrir mão da segurança e se abrir ao crescimento, dissolvendo em cada etapa da vida e em cada experiência, as forças regressivas da psique.

Teoria da Autoatualização

Fadiman & Frager (1986) consideram a teoria da autoatualização como um dos principais conceitos propostos por Maslow para uma Psicologia da saúde. Destacam que as suas pesquisas passaram pela análise da vida, valores e atitudes de pessoas consideradas saudáveis e melhores, livres de neuroses, mais maduras, criativas e bem integradas. Porém, não significa que estas pessoas são perfeitas e que que estão livres do sofrimento. Nesse sentido, Maslow (1970, p. 176) nos diz:

Não existem seres humanos perfeitos! Pode-se encontrar pessoas que são boas, realmente muito boas, na verdade excelentes. Existem, na realidade, criadores, videntes, sábios, santos, agitadores e instigadores. Este fato, com certeza, pode nos dar esperança em relação ao futuro da espécie, mesmo considerando que pessoas deste tipo são raras e não aparecem às dúzias. E, ainda assim, estas mesmas pessoas às vezes, podem ser aborrecidas, irritantes, petulantes, egoístas, bravas ou deprimidas. Para evitar desilusão com a natureza humana, devemos antes de mais nada, abandonar nossas ilusões a este respeito.

No trabalho de Maslow atualizar é tornar verdadeiro, existir de fato e não apenas em potencial. Assim, autoatualizar-se é aprender a sintonizar-se com a própria natureza, o self; significa experienciar de modo pleno, intenso e desinteressado; fazer escolhas em direção ao crescimento, abrir-se às experiências novas e desafiadoras, arriscar e assumir responsabilidade dos próprios atos com honestidade; trata-se de um processo contínuo de desenvolvimento das próprias potencialidades.

Deste modo, a autoatualização se converte em um processo contínuo de desenvolvimento das próprias potencialidades, tornando as pessoas capazes de realizar fatos extraordinários, mesmo quando são consideradas medianas. É o contínuo vir a ser, que permite ao indivíduo ir além da autoatualização, sentindo-se cada vez mais consciente de si, do mundo interior e exterior, sendo capaz de reconhecer as próprias defesas e então trabalha-las e abandoná-las. 

Experiências Culminantes

As experiências culminantes descritas por Maslow revelam não apenas um estado de consciência, mas um estado de ser, são momentos transitórios no processo de autoatualização que redimensionam as experiências humanas em todos os níveis do ser, elevando a um pleno funcionamento do corpo físico, do aparelho psíquico, integrando a razão à emoção, das relações intrapessoais, interpessoais e transpessoais, revelando os seguintes traços: 

  1. Inteireza, se sente integrada, não dividia ou dissociada, organizada e sinergética;
  2. Unidade, transcendência do próprio eu;
  3. Sente-se no auge de suas potencialidades e emprega com naturalidade os seus talentos; Desenvoltura e leveza, segue tranquila, calma e segura; 
  4. Durante a experiência sente-se mais que em outros momentos, responsável, ativa, centro criador de suas atividades e percepções; mais autodeterminada, e aos olhos dos outros, parece digna de confiança;
  5. Livre de bloqueios, inibições, barreiras, cautelas, medos, dúvidas, controles, reservas, autocríticas e “freios” internos ou externos;
  6. Mais espontânea, expressiva, natural e “inocente”;
  7. Criatividade peculiar, menos planejadas, premeditadas, ensaiadas. São emergentes;
  8. Denota singularidade, individualidade ou idiossincrasia;
  9. Liberto do passado e do futuro, permanece no “aqui e agora”;
  10. A pessoa manifesta-se mais psique (alma) e menos “coisa” do mundo, ao mesmo tempo, não se sente mais separada do outro que também é psique;
  11. Individuação, nível do divino. A pessoa não é mais afetada pelas necessidades de carência, comprazendo-se em tudo;
  12. A expressão e a comunicação são poéticas, míticas e “musicais”;
  13. Sentimento de totalidade e morte;
  14. Transcendência da polaridade dominação-subordinação, triunfo, alegria, exuberância, júbilo, prazer, recreação, beleza, amor e criação;
  15. Gratidão e dissolução da dicotomia entre humildade e orgulho, estabelecendo uma unidade singular.

Vale ressaltar, que Maslow elucida que as experiências culminantes não são planejadas ou provocadas deliberadamente, acontecem espontaneamente e de forma inesperada, e quando ocorrem, as pessoas relatam dois tipos de reações: uma na direção da excitação e alta tensão e outra de relaxamento, paz, silêncio, quietude e tranquilidade. 

Contudo, valoriza a psicoterapia como um relacionamento íntimo e confiante entre dois seres humanos, no qual o bom terapeuta é aquele que trata o outro de modo desvelado e amoroso, alguém que é capaz de ajudar sem interferir, fortalecer o outro e motivá-lo em seu processo de aperfeiçoamento (Fadiman & Frager, 1986). 

Se desejamos ajudar os humanos a tornarem-se mais plenamente humanos, devemos compreender que não só eles tentam realizar-se a si próprios, mas também, que se sentem relutantes, incapazes ou ainda, têm medo de fazê-lo.



Referências Bibliográficas 

  • Fadiman, J. & Frager R. (1986). Teorias da Personalidade. São Paulo : HARBRA. 393 p.
  • Maslow, A. H. (sd). Introdução à Psicologia do Ser. Rio de Janeiro : Eldorado. 278 p.
  • ___________ (1970). Motivation and Personality. New York : Harper and Row. 369 p.
  • ___________ (1982). La Personalidad Creadora. Barcelona : Editorial Kairós. 480 p.
  • ___________ (1990). La Amplitud Potencial de la Naureza Humana. México : Trilhas. 398 p.
  • Saldanha, V. (2008). Psicologia Transpessoal: abordagem integrativa transpessoal, um conhecimento emergente em psicologia da consciência. Ijuí : Ed. Unijui. 344 p.


Como citar este artigo na norma APA: Acciari, A. S. (2024, 12 de novembro) Maslow-Precursor da psicologia transpessoal. Blog asapsicologiatranspessoal. Disponível em 12 de novembro de 2024.